Como rezar pelos falecidos?

Rezar pelos falecidos é um gesto antigo, quase instintivo, mas que muitas vezes é questionado. O que essa oração ainda significa hoje? Para que serve? Como vivê-la quando a ausência se torna pesada? Em *Les Contemplations*, Victor Hugo escreveu: “Aqueles que amamos e que nos deixaram não estão mais onde estavam, mas estão em todos os lugares onde estamos.” Essas palavras dizem algo verdadeiro: a relação não se interrompe com a morte. No entanto, para muitos, a oração pelos falecidos continua sendo algo confuso, às vezes carregada de culpa ou mal-entendidos. É preciso rezar com frequência? Como rezar? E, acima de tudo, por que rezar por quem já partiu para o outro lado?

Por que rezar pelos falecidos se eles estão nas mãos de Deus?

Nossos falecidos estão, de fato, nas mãos de Deus. Essa é a nossa esperança cristã. No momento da morte, que é a separação da alma do corpo, eles tiveram essa visão de Deus, que continua sendo um grande mistério pra gente que ainda está aqui na Terra, e sobre a qual nosso conhecimento ainda é parcial, como lembra São Paulo.

Nossos falecidos fizeram uma escolha: a de Deus ou a possibilidade de rejeitá-Lo. Se escolheram Deus, agora estão nas mãos Dele: seja diretamente no céu, seja ainda em um intervalo, num período de purificação de suas almas. É aí que nossos falecidos precisam das nossas orações.

“No purgatório, a alma já não pode fazer nada por si mesma.”

Isso é fácil de entender: é o amor que nos santifica, é a caridade que nos santifica. Mas nosso amor também se manifesta por meio de atos. Depois da morte, a alma se separa do corpo e não pode mais realizar atos meritórios por si mesma.

Por isso, nós que estamos aqui na Terra podemos, com nossa caridade e nosso amor, realizar essas ações meritórias e oferecê-las como presentes para nossos falecidos. Essa oferta, unida à oração de muitas outras pessoas que também rezam pelos falecidos, ajuda-os a avançar em direção à luz, a se purificar e a chegar ao céu.

Que presentes dar aos nossos falecidos?

Esses presentes são o amor que podemos oferecer a eles. Eles sempre passam pelo coração de Deus, seja na oração, na oferta das nossas orações, nos nossos gestos de amor mais concretos, nos nossos sofrimentos, nas nossas tristezas ou nas nossas alegrias.

Então, tem várias maneiras de rezar pelos nossos falecidos. A gente pode recitar orações conhecidas, como o terço, por exemplo. A gente pode oferecer pelo nosso falecido uma dezena do terço, um terço inteiro, um rosário… por que não?

Também podemos fazer outras orações, porque a oração não é só uma fórmula. É um relacionamento com Deus. Uma relação não precisa ser sempre algo pré-definido. Ela também pode ser espontânea com Deus. Assim, podemos confiar a Deus ou a Maria as almas dos nossos entes queridos que já partiram, expressando nosso desejo de que eles vão para o céu.

Essa oração espontânea também nos permite expressar nossa intercessão por eles. Talvez às vezes fiquemos um pouco preocupados com a salvação dos nossos falecidos, porque viveram longe da fé ou porque certas coisas no comportamento deles nos deixam na dúvida. Nesse caso também, a oração é um ato de caridade.

Não cabe a nós julgar. Não devemos nos colocar no lugar de Deus para dizer que nosso falecido está no céu, no purgatório ou no inferno. Mas podemos ter uma preocupação saudável.

O padre Buguet, fundador dessa obra, dizia que ficava angustiado com o destino das almas. Essa angústia pode ser motivada pela caridade. Não se trata, portanto, de um medo infertil, mas de um amor que ainda quer ajudar.

A missa, a oração das orações pelos falecidos

O padre Buguet, aqui em Montligeon, colocou a missa no centro da mensagem do santuário. A Eucaristia celebrada pelos falecidos tem um lugar especial, porque é a memória da oferta de Cristo na cruz. Na missa, essa oferta se torna presente e é aplicada por uma intenção, que pode ser a dos nossos falecidos.

“A oração das orações é a missa.”

A Eucaristia é, portanto, de certa forma, o meio mais poderoso de ajudar nossos irmãos e irmãs no purgatório. Podemos oferecer uma missa por um falecido, mas também podemos oferecer uma novena de missas ou o que chamam de “trinta-dias gregorianos”. Essa prática é bem antiga na Igreja e remonta ao Papa São Gregório.

Além disso, com o ano jubilar, a gente ouviu falar bastante sobre indulgências. A gente pode pedir a indulgência de Deus pelos nossos falecidos. Pra isso, é preciso ir a um local jubilar ou a um lugar onde a gente possa receber uma indulgência plenária.

A indulgência é uma remissão concedida sob certas condições, que também devem ser vividas com caridade. Entre essas condições, está o rejeitar o mal e o pecado na nossa vida. Isso significa que a gente se compromete a trilhar um caminho de conversão. Tem também a oração pelas intenções do Santo Padre, o “Creio em Deus” e as outras condições exigidas pela Igreja.

Todas essas condições mostram nossa caridade, nosso amor, nosso esforço e nossa participação. Nós nos comprometemos ao lado de Cristo pela salvação de uma alma.

A irmã Cécile explica como rezar pelos entes queridos que já se foram no programa “Sanctuaires Normands”, da RCF.

Transformar o dia a dia em oração e em oferenda

Depois da missa, das novenas, dos trinta dias de oração e das indulgências, tem todas as obras de caridade bem concretas, tanto corporais quanto espirituais. Tem as obras de misericórdia, mas também o nosso dia a dia. Tudo o que fazemos pode virar oração, até mesmo nossas ações bem concretas, nossas alegrias e nossas tristezas.

Podemos escolher oferecer momentos da nossa vida em união com Cristo, que se oferece, durante uma missa, por essa alma. Assim, tudo pode se tornar oração, ato de amor e oferenda pelas almas, para ajudar na salvação delas.

“Tudo pode se tornar uma oração e um ato de amor e de oferenda por essas almas.”

Claro, é Jesus quem salva. Mas a gente une nossas oferendas à oferenda de Cristo. Tudo passa pelo coração de Jesus. As obras de misericórdia são simplesmente atos concretos de amor. Elas fazem parte do ensinamento da Igreja Católica. São quatorze, divididas em obras de misericórdia corporais e obras de misericórdia espirituais. Elas foram especialmente destacadas durante o Ano Jubilar da Misericórdia, decretado pelo Papa Francisco.

Entre as obras de misericórdia corporais, tem, por exemplo, dar de comer aos que têm fome, vestir os que estão nus, visitar os doentes ou enterrar os mortos. Entre as obras de misericórdia espirituais, tem as obras de caridade espiritual: suportar quem te irrita, ensinar quem não sabe, aconselhar ou ainda reservar um tempo para ouvir alguém.

Na nossa vida, a gente pode, então, ajudar de um jeito bem material, concreto e físico, mas também de um jeito mais espiritual. Dedicar um tempo para ouvir alguém já é um ato de caridade.

A caridade purifica e nos une à comunhão dos santos

Por trás de tudo isso, é preciso lembrar que é a caridade que purifica. Santa Teresa de Lisieux citava esse versículo do livro dos Provérbios: “O amor encobre uma multidão de ofensas. ” Ela tinha entendido isso na própria pele. Não perdia nenhuma pequena oportunidade de colocar sua caridade em prática.

Ela dizia, por exemplo, que pegava um alfinete ou que caminhava por um missionário. É isso mesmo que é viver a comunhão dos santos. Tudo o que fazemos pode contribuir, enriquecer esse tesouro da comunhão dos santos e ter um impacto em outra alma, seja ela ainda viva aqui na Terra ou já na vida eterna.

Essa lógica é essencial pra entender a oração pelos falecidos. A gente não tá isolado uns dos outros. A caridade que a gente pratica aqui na Terra pode ser oferecida pelos outros. Ela pode dar frutos além do que a gente vê.

Assim, a oração pelos falecidos não se resume a um ritual realizado em determinados momentos. Ela pode acompanhar toda a nossa vida. Ela se torna uma forma de continuar amando aqueles que já se foram, sem fingir que sabemos exatamente onde eles estão, sem nos colocarmos no lugar de Deus, mas confiando tudo à Sua misericórdia.

As pessoas que não são religiosas podem rezar pelos seus falecidos?

Essa questão também diz respeito às pessoas que estão distantes da fé, que nem sempre vão à missa todos os domingos, ou mesmo àquelas que não acreditam. A oração pelos falecidos também diz respeito a elas.

Todo ser humano tem aquela dúvida sobre o além, seja católico praticante ou não. Todo mundo carrega, de um jeito ou de outro, esse desejo ou essa dúvida. Tem gente que diz: depois, é o nada. Mas muita gente também pensa: não dá pra acreditar nisso, depois tem outra coisa.

Essa busca mostra o desejo de manter o vínculo com aqueles que já se foram. A oração também é isso: manter um vínculo espiritual com os falecidos.

Para quem está ouvindo e se sente distante da fé, pode haver aqui uma bela esperança: mesmo depois da ruptura causada pela morte, ainda é possível continuar ajudando o próximo, continuar demonstrando nosso amor ao ajudar o próximo.

“É possível, mesmo depois da morte, continuar ajudando o outro.”

E também podemos saber que nossos entes queridos que já partiram podem nos ajudar. Esse ponto abre outro assunto, mas nos lembra que a comunhão não é só de um lado só. Na fé cristã, os laços de amor não desaparecem com a morte. Eles são confiados a Deus, purificados por Ele e levados para a comunhão dos santos.

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