O luto tem fim?

Quando alguém perde um ente querido, sempre surge a mesma pergunta: quanto tempo vai demorar pra a gente se sentir melhor? O tempo é suficiente para amenizar o sofrimento? Nesse programa “Sanctuaire normand” da RCF, a irmã Cécile, priora da comunidade da Nova Aliança, explica por que a duração do luto não pode ser definida de antemão. Ela fala sobre as etapas do processo de luto, as dificuldades que podem surgir e como a fé cristã pode te acompanhar nesse caminho.

Entender a sua trajetória

Quando alguém querido morre, muitas vezes ouve-se essa frase de quem fica: “Com o tempo, a gente vai ficar melhor”. Mas o tempo que passa não leva necessariamente a dor embora. Os dias se sucedem, as estações voltam, e a ausência permanece. Para muitas pessoas em luto, a dor continua presente na vida, às vezes por muito tempo depois da morte.

A irmã Cécile nos convida, em primeiro lugar, a refletir sobre o que a perda causa em nós. O luto não é só um período de sofrimento pelo qual a gente passa antes de retomar, intacta, a vida de antes. Ele afeta a própria identidade de quem fica.

“Primeiro, a gente está de luto. O verbo ‘ser’. Ou seja, a ruptura causada pela morte que nos atinge faz com que a gente já seja uma pessoa em luto.”

Algo se rompeu na continuidade dos dias. Agora, a gente precisa aprender a viver nessa nova realidade, onde a outra pessoa não está mais por perto. Não se trata de se tornar outra pessoa, mas de reencontrar o seu lugar em uma vida cujo equilíbrio foi abalado.

“Preciso me reorientar. E talvez seja justamente esse o desafio do processo de luto: conseguir me reorientar nessa nova identidade.”

O que a dor da ausência desperta

Para falar sobre esses diferentes períodos, a irmã Cécile usa a imagem da ferida. Algumas ficam só na superfície e saram rápido. Outras atingem mais fundo e deixam uma cicatriz duradoura. Dependendo do que foi afetado, recuperar o equilíbrio pode exigir um caminho mais longo.

Ela conta, por exemplo, o caso de uma pessoa idosa que veio participar de uma sessão de luto vários anos depois da morte da mãe. A participante achava que ia lidar com a perda da mãe, mas descobriu que outro sofrimento, mais antigo e que ainda não tinha sido resolvido, continuava presente.

A sessão permitiu que ele iniciasse um processo de perdão e reconciliação.

Esse exemplo mostra que o luto pode afetar várias dimensões da vida. A perda de uma pessoa pode reavivar outras feridas, outras rupturas ou relacionamentos que ainda não encontraram paz.

“O luto não é só pela perda de uma pessoa, mas também por um monte de coisas ao redor.”

A irmã Cécile, no entanto, diz pra gente não se assustar com qualquer sofrimento que se prolongue. O fato de o caminho ser longo não significa, por si só, que a gente não consiga percorrê-lo. Ela pede, porém, pra gente ficar atento quando, ao longo de anos, a dor aprisiona a pessoa e impede que ela volte a viver.

O luto também abala a família

A ausência não transforma só a vida interior. Ela também afeta a família, seus hábitos e o lugar que cada um ocupava nela. A irmã Cécile fala disso usando a imagem de um corpo em que um membro tivesse sido atingido.

Quando alguém se vai, os outros precisam, aos poucos, reencontrar seu lugar. Os papéis mudam, os gestos de sempre se transformam, e ainda é preciso construir um novo equilíbrio.

“A perda de alguém próximo, de alguém muito próximo, é como se a família tivesse perdido um membro.”

Esse reajuste leva tempo. Assim como um corpo ferido reaprende certos movimentos, a família precisa aprender a viver de outra forma. Uma espécie de reabilitação vai acontecendo, aos poucos, no dia a dia.

Ter alguém ao seu lado para voltar ao caminho certo

No santuário de Nossa Senhora de Montligeon, algumas pessoas vêm participar de encontros dedicados ao luto. A irmã Cécile explica que esses momentos podem ajudar a superar certas situações.

Falar, ouvir, perdoar ou até mesmo a chance de se despedir podem ajudar a retomar um caminho que foi interrompido.

“Já percorremos um pedacinho do caminho com eles.”

O acompanhamento oferece essa presença durante uma parte da jornada. O trabalho pessoal continua depois, além da sessão, na vida de cada um.

Ao final dessa conversa, a irmã Cécile deixa espaço para a singularidade de cada história. Não existe um cronograma comum para todas as dores. Mas, mesmo com durações e etapas diferentes, o caminho do luto te leva, aos poucos, a reencontrar uma nova vida.

“O importante, afinal, é estar nessa dinâmica, aprender a viver, a reviver, a renascer. A reencontrar a sua identidade mais profunda. Sem esquecer o outro, mas sem ele fisicamente ao seu lado.”

Um tempo que não dá pra medir

Quanto tempo leva esse caminho? Dá pra definir uma duração, saber quando ele deve acabar? A irmã Cécile lembra que algumas etapas já foram descritas, principalmente por psicólogos. Elas podem ajudar a entender o que a gente está passando, desde que não transformem o luto em um processo muito mecânico.

Porque esse caminho nem sempre segue em linha reta. A gente acha que avançou, mas aí a dor volta, e a gente se sente de novo quase no começo. Cada história tem seu próprio ritmo.

https://youtu.be/jhuUfH2ZYWI

As circunstâncias da morte têm um papel importante nisso. Uma morte repentina, um suicídio, a perda de um filho ou a morte de um idoso não abalam a vida da mesma maneira. A relação que a gente tinha com a pessoa que se foi também dá à ausência dela uma profundidade única.

“Não existe uma fórmula mágica pra dizer: ‘o luto tem que durar tanto tempo’.”

O primeiro ano traz, no entanto, um desafio especial: ele faz a gente descobrir, uma a uma, as primeiras vezes sem a outra pessoa. Um aniversário, uma festa em família, o Natal, uma data que fazia parte da história de vocês juntos. O calendário traz de volta os dias de sempre; agora falta uma presença.

Esses encontros podem fazer com que a saudade fique ainda mais forte. Mas ter passado pela primeira vez pelo ciclo das estações não significa que a dor desapareça.

Deixar ir sem esquecer

A questão do tempo também levanta a questão do vínculo com a pessoa que se foi. Sentir-se melhor às vezes pode causar uma certa preocupação: se a dor diminui, será que isso significa que a gente está esquecendo quem se foi?

Para a irmã Cécile, o luto consiste justamente em transformar a relação.

“Fazer o luto também é aprender a deixar a outra pessoa partir. Aprender a deixar que ela siga seu caminho sob o olhar de Deus, e que eu também continue o meu.”

Na perspectiva cristã, a morte não acaba com todas as relações. Ela apenas muda a forma delas. A presença física já não existe, mas o vínculo pode encontrar um lar interior e espiritual.

“Só porque a gente vai ficar melhor, não quer dizer que vamos deixar de nos solidarizar com o outro.”

A comunhão com o falecido não depende mais da presença visível dele. Ela se aprofunda em uma outra forma de se relacionar com ele, enquanto quem fica segue com a vida.

A fé à prova da ausência

A fé cristã pode ajudar no processo de luto? A irmã Cécile responde com sutileza.

Ela lembra, antes de tudo, que quem não acredita também pode passar por um luto e recuperar o equilíbrio. A fé não é uma solução automática que acabaria com o sofrimento.

A oração faz parte de um relacionamento com Deus, um relacionamento que se constrói e se desenvolve ao longo do tempo. Para o cristão, o luto pode, assim, se tornar um caminho no qual ele aprende a entregar o falecido a Deus.

“É entregar o outro nas mãos de Deus.”

Esse processo exige uma jornada interior. Às vezes, o sofrimento pode gerar raiva contra Deus. Nesse caso, é preciso reconstruir, aos poucos, uma relação de confiança.

“Deus não é o inimigo (…) ele está do meu lado.”

A oração não tira a dor de imediato, mas pode abrir um caminho de esperança.

Dolène Yvrande

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