O inferno é frio

Diante da perspectiva da eternidade, a gente fica tentado a fingir que o inferno não existe ou que está vazio. O que muda pra gente quando a gente acredita que ele existe? O padre Paul Denizot, reitor do santuário de Montligeon, explica.

O que significa viver um inferno na Terra?

O inferno é ficar dominado pelo pecado e pelo mal. A gente pode sentir isso, por exemplo, quando tá preso a certos vícios e acha que nunca vai conseguir sair dessa. O inferno é se identificar com o próprio pecado, sem esperar por nenhum perdão. É também se julgar e se recusar a amar e a ser amado. Penso, por exemplo, em alguém que desconfiava de tudo e que se fechou tanto no próprio sofrimento, na raiva e na solidão que nem sequer falava mais.

Aqui na Terra e até o último instante, o Senhor pode abrir uma brecha. No inferno, é definitivo. A imagem do “ranger de dentes” usada por Jesus no Evangelho ilustra bem o isolamento em si mesmo, no ódio a Deus e aos outros.

Auschwitz, será que era o inferno?

Tem lugares no mundo onde o ódio, o mal e o sofrimento pareciam ter levado tudo embora e destruído tudo. E, mesmo assim, até em Auschwitz, rolaram atos de amor, coragem e humanidade. Como o sacrifício de São Maximiliano Kolbe pra salvar a vida de um pai de família. Nesses lugares profundamente marcados pelo ódio, ainda assim houve amor.

No inferno, não existe mais amor. Só resta o desespero, o cinismo e o absurdo.

Costuma-se retratar o inferno como uma fornalha assustadora. Na verdade, lá é frio, aquele frio gélido da solidão.

Dá pra imaginar os sofrimentos do inferno com base no que a gente vive aqui na Terra?

A tradição da Igreja fala de dois tipos de sofrimento no inferno: o castigo do “dam” e o castigo do sentido. O castigo do “dam” é o sofrimento da separação de Deus. O réprobo fica dilacerado (como canta o Patrick Fiori), porque foi feito para amar a Deus com todo o seu ser, mas recusa-O com toda a sua vontade. Por isso, ele fica dividido entre sua tendência profunda de amar e a recusa na qual se teima, assim como a gente pode teimar no mau humor, na raiva ou no ódio. Que sofrimento é essa teimosia para sempre!

O sofrimento do sentido é composto por todos os outros sofrimentos ligados à privação de ver Deus. Tem a escravidão às criaturas, ao dinheiro, à sede de poder, ao sexo e todos os vícios que nos impedem de ser livres. O inferno é uma escravidão sem chance de libertação! Tem também a aversão à realidade. O orgulho enganou o condenado, fazendo-o acreditar que ele era o centro e a medida do mundo. A realidade o queima porque resiste à sua sede de onipotência, e essa queimadura é insuportável.

Mas nossos desejos são bons, né?

Nossos desejos são bons na sua origem, já que vêm de Deus e porque o desejo fundamental do homem é ver Deus, que é o único capaz de saciar sua sede de felicidade e amor. No entanto, nossos desejos também podem nos cegar, direcionando-nos exclusivamente para as criaturas, as realidades finitas que não são más em si mesmas, mas das quais podemos nos tornar prisioneiros. Esses desejos podem, no fim das contas, fazer com que nos concentremos em nós mesmos e na nossa própria satisfação. É aí que eles nos consomem, pois permanecem insatisfeitos. O fogo do inferno é o fogo do desejo de Deus que, por ser rejeitado, queima. Já no céu, esse fogo do amor de Deus ilumina, vivifica e transfigura.

O inferno são os outros?

Não, o inferno é ficar sozinho. A gente sabe muito bem que conviver com os outros nem sempre é moleza e que, às vezes, a gente pode sofrer muito com isso (na família, na escola ou no trabalho…), mas acho que a gente foi feito pra viver com os outros. Uma criança que nasce precisa dos pais pra se alimentar e crescer. A gente também sente isso nas comemorações que nos emocionam (festas em família, no estádio de futebol, num show, durante uma peregrinação…). Por outro lado, o inferno é a solidão.

Além disso, a gente sente que só o amor pode dar sentido à nossa vida, o amor que a gente dá e recebe. Por outro lado, o inferno é justamente não poder mais amar e ser amado.

No inferno, ninguém mais nos chama pelo nome.

É Deus quem manda as pessoas pro inferno?

Deus nunca para de nos dar o seu amor. Na hora da nossa morte, o estado do nosso coração se fixa na escolha fundamental que fizemos na vida. Se eu escolhi o ódio ou a raiva e construí minha vida com base nisso, na hora da minha morte, corro o risco de recusar a salvação de Deus. Posso escolher o inferno, e Deus só vai respeitar a minha escolha. Deus não nos coloca no inferno, mas a morte cristaliza nossa escolha, que se torna definitiva. Assim como uma árvore cai para o lado para o qual está inclinada, há grandes chances de morrermos da mesma forma como vivemos. O condenado se teima para sempre na sua recusa.

A gente deve desejar o inferno pra alguém?

Não, porque isso é terrível. Não desejo isso a ninguém. É por isso que somos convidados a rezar pelos pobres pecadores, dos quais fazemos parte! Quando rezamos a Ave-Maria, dizemos: “Roga por nós, pobres pecadores, agora e na hora da nossa morte”. Pedimos a graça de nos abrirmos à misericórdia de Deus e a perseverança até o fim.

Jesus falou bastante sobre o inferno e sobre a eternidade dele. Isso é, antes de tudo, um aviso para a gente mesmo. Antes de ficar fazendo estatísticas pra saber quem tá no inferno, vamos nos perguntar: “Se eu morresse hoje à noite, estaria pronto?” e rezar pelos pecadores. A questão do inferno nos pressiona, assim como a caridade de Cristo.

No Juízo Final, aliás, esse será o critério definitivo: “O que vocês fizeram a um desses pequeninos que são meus, foi a mim que vocês fizeram. ” Portanto, não podemos ficar indiferentes. A vida cristã não é uma espécie de balanço das nossas boas e más ações, mas uma jornada que nos leva cada vez mais a servir o próximo.

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